Ultimamente, tenho reparado numa mudança agressiva na forma como certas empresas de tecnologia/IA estão se comunicando.
A gente estava acostumado com aquele tom corporativo, clean, quase asséptico do Vale do Silício, onde tudo era sobre “conectar o mundo” ou “tornar sua vida melhor”.
Esquece isso. O jogo virou, e a bola da vez é o marketing de provocação. Se você der uma volta no metrô de São Paulo ou rolar o feed por cinco minutos, vai perceber.
Empresas de inteligência artificial e, curiosamente, laboratórios de genética, decidiram que a polidez não paga boleto. Elas estão apostando alto no choque, na controvérsia e naquela cutucada que faz você parar, ler e, inevitavelmente, ter uma reação emocional.
A lógica por trás do barulho
Não é difícil entender o motivo. O mercado está saturado de promessas vazias. Dizer que sua IA é “revolucionária” virou paisagem. Ninguém mais presta atenção.
Agora, quando você coloca um outdoor sugerindo que a tecnologia vai substituir o trabalho criativo de humanos, ou quando uma empresa de genética faz piada com traições familiares descobertas via DNA, o cenário muda.
Eles não querem que você concorde. Eles querem que você discuta.
É uma estratégia arriscada, claro, mas calculada. No mundo dos negócios online, a atenção é a moeda mais valiosa, e a indignação é um combustível barato e abundante.
Quando uma campanha dessas vai para a rua, o objetivo não é apenas o impacto visual naquele local físico. O objetivo é que alguém tire uma foto, poste no Instagram e comece uma guerra de comentários. Pronto. Mídia espontânea, alcance orgânico e a marca na boca do povo.
O vale-tudo da biotecnologia e IA
O que me chama a atenção é como setores que deveriam ser pautados pela ética e precisão científica – como a genética – entraram nessa dança.
Você vê campanhas que transformam testes de ancestralidade e saúde em novelas da vida real. A narrativa deixou de ser sobre “conheça sua saúde” para ser sobre “descubra se seu pai é mesmo seu pai”. É o sensacionalismo aplicado ao produto mais íntimo que existe: o seu código biológico.
No campo da Inteligência Artificial, a provocação vai pelo caminho do medo e da inevitabilidade. As campanhas muitas vezes soam quase como um ultimato – adapte-se ou torne-se obsoleto.
É um marketing que joga com a ansiedade profissional das pessoas. E funciona, porque o medo é um gatilho de ação poderosíssimo.
Riscos reais de uma estratégia agressiva
Eu vejo isso com um olhar duplo. Como alguém de negócios, admiro a audácia de quebrar o padrão monótono. Mas como observador do mercado, vejo o perigo de banalizar tecnologias sérias.
Existe uma linha tênue entre ser provocativo e ser irresponsável. Quando você baseia toda a sua estratégia em causar alvoroço, você atrai os curiosos, mas nem sempre constrói confiança. E, especialmente quando lidamos com dados pessoais ou ferramentas de trabalho críticas, a confiança ainda é o alicerce da retenção de clientes.
O marketing de provocação gera o clique inicial, o cadastro, o trial. Mas ele não segura o cliente se o produto for ruim ou se a empresa parecer uma moleca inconsequente.
O que tirar disso para o seu negócio
Não estou dizendo para você sair por aí ofendendo seu público-alvo para vender mais. O que essas grandes empresas estão fazendo exige orçamento para gerenciar crise e uma pele grossa que a maioria dos pequenos e médios empresários não tem.
Se o seu marketing é morno, ele é invisível. Você não precisa ser polêmico a nível de manchete de jornal, mas precisa ter opinião. Marcas que ficam em cima do muro, tentando agradar todo mundo com discursos genéricos, estão sendo engolidas por quem tem coragem de se posicionar.
A provocação, na dose certa, é apenas uma forma de dizer “ei, eu existo e penso diferente”.
No fundo, essas empresas de IA e genética entenderam que, no meio do ruído digital, o silêncio é a única coisa que mata um negócio.
Elas escolheram gritar. Resta saber até quando a audiência vai ter paciência para ouvir antes de colocar os fones de ouvido novamente.