Sempre observei como a gente normaliza o desgaste diário nas empresas. Você entra numa reunião de alinhamento e metade da equipe parece estar funcionando no piloto automático, vivendo à base de café e prazos irreais.
Acabei de ler um artigo na Forbes detalhando uma pesquisa da Gupy sobre saúde mental e os números confirmam o que a gente já sente na pele.
Tivemos um recorde de afastamentos por burnout no ano passado. E agora, com a nova regra NR-1 batendo na porta a partir de 2026, as lideranças finalmente estão sendo obrigadas a olhar para o esgotamento extremo como um risco de negócio gravíssimo.
O dado que mais chamou minha atenção foi a lista dos setores onde o alerta vermelho está piscando mais forte.
Varejo e atacado lideram com quase 11% dos profissionais na faixa crítica. Logo atrás vêm educação e a minha velha conhecida área de marketing e comunicação.
Se você já trabalhou em qualquer um desses mercados, sabe exatamente o motivo da exaustão. São atividades de contato direto e intenso com o público.
No marketing, por exemplo, a gente convive com a pressão diária de metas agressivas, campanhas que mudam de rumo do nada e aquela jornada de trabalho que simplesmente não tem hora para acabar.
Você deita a cabeça no travesseiro pensando no custo de aquisição de clientes e acorda respondendo mensagem de cliente apavorado.
A pesquisa aponta que 4 em cada 10 profissionais sinalizam algum tipo de risco psicossocial. Isso envolve desde um ambiente de trabalho hostil até volumes de entrega que beiram o impossível.
E aqui entra uma mudança de perspectiva necessária. A Organização Mundial da Saúde trata a síndrome como um fenômeno ocupacional.
O adoecimento acontece devido às condições estruturais da empresa e ao acúmulo desproporcional de demandas, enterrando de vez a velha desculpa de que o funcionário simplesmente tem uma fragilidade individual.
A tabela de risco traz o varejo, a educação e o marketing no topo, mas também mostra setores como finanças com números baixos, na casa dos 3%.
| Setor | Risco de Burnout (%) |
|---|---|
| Varejo e Atacado | 10,79% |
| Educação | 9,87% |
| Marketing, Publicidade e Comunicação | 9,67% |
| Hotelaria e Restaurante | 9,55% |
| Setor Público / ONGs | 9,14% |
| Arte e Lazer | 8,38% |
| Serviços de Saúde | 7,15% |
| Consultoria | 6,04% |
| Indústria | 5,40% |
| Tecnologia e Software | 4,95% |
| Transporte e Logística | 4,86% |
| Agronegócio | 4,70% |
| Serviços | 4,58% |
| Governo e Órgãos Públicos | 4,42% |
| Construção Civil | 3,82% |
| Utilidade Pública (energia, água, telefonia etc.) | 3,70% |
| Financeiro | 3,20% |
A própria pesquisa faz um aviso importante sobre isso. Em mercados onde a exigência e a cultura da performance são extremas, as pessoas escondem a exaustão por medo de perder o emprego ou de parecerem fracas.
O problema continua lá, apenas camuflado sob a cultura do silêncio.
Para quem está na cadeira de liderança, o caminho para melhorar esse cenário exige ações práticas diárias. A gente precisa intervir na gestão da carga de trabalho real da equipe.
Estabelecer pausas viáveis, oferecer suporte emocional de verdade e garantir segurança psicológica para que o time possa levantar a mão e dizer que não dá conta antes de estourar.
O volume de afastamentos e a alta rotatividade de talentos já estão custando uma fortuna para as empresas que insistem em ignorar os sinais de fumaça.