Já perdi a conta de quantas startups vi batendo a cabeça na parede pelo mesmo motivo. Depois de quase uma década rodando em ecossistemas de IA, SaaS e Web3, a gente começa a notar um padrão meio triste, quase uma sina que persegue quem está começando.
O pessoal se tranca numa sala por dois anos, gasta uma energia absurda lapidando cada linha de código em segredo e, na hora de mostrar o “filho” pro mundo, o que ouve é só o barulho dos grilos. É o lançamento no vazio total.
O roteiro é quase sempre o mesmo. As equipes trabalham no escuro por uma eternidade e lançam em silêncio absoluto. Quando percebem que ninguém apareceu, a culpa cai no marketing.
Aí bate o desespero e contratam alguém júnior de redes sociais pra postar conteúdo que ninguém pediu e que, sinceramente, ninguém quer ler. Queimam mais seis meses de caixa e o dinheiro acaba antes da tração chegar.
O problema é que quando o fundador finalmente decide focar em crescimento, geralmente já é tarde demais pra consertar as coisas sem gastar uma fortuna que ele não tem mais.
O trabalho chato que ninguém quer fazer
Quem escapa dessa armadilha costuma focar em algumas coisas que não têm glamour nenhum, mas que funcionam. O tal do crescimento liderado pelo fundador é um exemplo clássico.
Um dos sócios precisa dar a cara a tapa, virar o rosto do produto no Instagra, no X, no LinkedIn, no Youtube e até mesmo em eventos. Não dá pra delegar a alma do negócio pra um estagiário de social media logo de cara.
Outra coisa que vejo pouco é tratar os primeiros usuários como canais de distribuição, em vez de apenas máquinas de feedback.
Se o cara gostou do que viu, ele precisa ter um incentivo quase instintivo pra trazer mais dois ou três amigos. Isso tem que estar desenhado no produto desde o dia um, seja com lista de espera ou convites exclusivos.
Narrativa antes de funcionalidade
Antes de se preocupar se o botão é azul ou verde, o foco deveria ser na história. As poucas equipes que realmente decolam são obcecadas pela narrativa antes mesmo das funcionalidades estarem prontas.
Elas criam uma comunidade – seja no Slack, Discord ou Telegram – com 50 ou 100 pessoas que estão ali vendo o processo acontecer. É um negócio bagunçado, sem polimento. Tem chamada semanal, roadmap público e feedback aberto.
É nesse caos que você encontra o ajuste entre o que você criou e o que o mercado realmente quer pagar pra usar.
Na hora do lançamento oficial, esses fundadores não estão reagindo ao que acontece. Eles controlam o sentimento. Já têm teasers prontos, apoiadores iniciais na agulha e depoimentos pré-combinados.
É uma coordenação de bastidor que parece orgânica, mas é puro suor operacional.
É um processo irritante e exige uma paciência que muito desenvolvedor não tem, mas é o que separa quem constrói um negócio de quem só constrói um software.
De qualquer forma, é o que eu tenho visto por aí nos últimos anos. Não sei se foi uma sorte incomum com as startups que passei ou se esse padrão de “lançar no deserto” é mesmo a regra silenciosa do mercado.