Eu passo pelos corredores de universidades de vez em quando e noto um clima bem específico. Tem uma galera tensa com a inteligência artificial, discutindo o que vai sobrar do mercado de trabalho nos próximos anos.
Como eu vivo o mundo dos negócios digitais todo santo dia, acabo olhando por um ângulo totalmente diferente. Se você está na faculdade hoje e já pensa em montar o seu próprio negócio, a IA não é uma ameaça, ela acabou de te entregar uma vantagem absurda porque nivelou o conhecimento técnico básico de todo mundo.
O que vai separar quem cria um negócio sólido de quem fica patinando não é a capacidade de gerar um texto rápido ou automatizar uma planilha financeira. O peso agora cai sobre aquilo que a máquina simplesmente não consegue simular.
Eu estava lendo sobre as novas habilidades de liderança que estão ganhando força e resolvi traduzir isso para a realidade de quem ainda está com a cara nos livros. O mercado acadêmico é o melhor laboratório que existe para você testar como lida com pessoas.
Vamos sair da teoria e ir para um cenário prático que eu vejo acontecer direto. Pense no curso de medicina veterinária. Vamos imaginar o Lucas, um estudante que está ali nos últimos semestres e já decidiu que vai abrir a própria clínica logo depois de pegar o diploma. Ele sabe que o mercado pet no Brasil é gigantesco e extremamente competitivo. Não basta colocar uma placa na porta e esperar os clientes aparecerem.
Para você ter uma noção do volume de dinheiro que circula aí, uma pesquisa baseada em dados da Associação Brasileira da Indústria de Produtos para Animais de Estimação aponta um faturamento na casa das dezenas de bilhões.
Eu separei os números de 2024 para a gente visualizar melhor onde está o foco desse mercado. O link da pesquisa completa está no site da abempet.org.br
| Segmento do Mercado Pet | Faturamento projetado (2024) | Representatividade |
| Pet Food (Alimentação) | R$ 40,3 bilhões | 54,1% |
| Pet Care (Higiene e Estética) | R$ 10,7 bilhões | 14,4% |
| Venda de animais | R$ 8,1 bilhões | 10,9% |
| Pet Vet (Produtos) | R$ 7,8 bilhões | 10,4% |
| Serviços Veterinários | R$ 7,6 bilhões | 10,2% |
Com esse volume de grana fluindo, o Lucas é esperto o suficiente para entender que só o diploma da graduação não vai segurar as pontas. A concorrência também tem o mesmo diploma que ele. Ele precisa de um diferencial técnico forte para atrair uma clientela disposta a pagar por um serviço de excelência.
Ele já está se antecipando e estruturando os planos para iniciar uma pós graduação. A referência dele para isso é a IBVET, focando em ter um laboratório próprio dentro da clínica para entregar diagnósticos rápidos.
A ideia técnica dele é excelente. O plano de negócios no papel faz todo o sentido. O choque de realidade de muito universitário começa exatamente no dia seguinte à inauguração, quando ele percebe que dominar a técnica não resolve a gestão da empresa.
O Lucas vai ter que contratar uma equipe, negociar prazos com fornecedores de medicamentos e gerenciar a ansiedade de clientes que chegam com seus animais doentes. É uma dinâmica puramente humana.
É nessa hora que a tecnologia mostra o limite dela. Você percebe o clima de um grupo quando a IA já resolveu toda a parte burocrática.
A IA escreve o contrato de prestação de serviço da clínica em segundos. Um software de gestão agenda as consultas e dispara mensagens automáticas no WhatsApp dos clientes para confirmar horários. Só que nenhum sistema no mundo vai apitar na sua tela avisando que a sua recepcionista está a um passo de pedir demissão por exaustão mental.
Na faculdade, você já treina essa leitura de ambiente o tempo todo, mesmo sem perceber. Lembra daquele trabalho acadêmico em que todo mundo do grupo concordou rápido demais com o tema escolhido?
Quase sempre eles só querem ir embora logo para casa e ninguém ali liga de verdade para a qualidade da entrega que vocês vão fazer. Identificar esse silêncio e essa falta de energia coletiva é uma habilidade rara.
Se você leva essa falta de percepção para o seu negócio, você acaba comprando um equipamento caríssimo achando que a equipe apoiou a ideia, quando na verdade eles só não queriam prolongar a reunião.
O Fórum Econômico Mundial bate muito nessa tecla. O relatório deles sobre o futuro do trabalho mostra que habilidades como empatia, escuta ativa e influência social estão no topo do que as empresas mais maduras procuram.
Outro ponto que pega muito para quem está começando a empreender é achar que existe um manual de instruções para lidar com funcionários.
Você precisa ajustar a forma de cobrar cada pessoa da sua futura equipe. Tratar todo mundo de um jeito padronizado gera um desgaste enorme e desnecessário.
- O veterinário parceiro que já tem dez anos de experiência precisa de espaço livre para trabalhar e total autonomia nas decisões clínicas.
- O estagiário que acabou de sair da faculdade vai precisar de você olhando por cima do ombro nas primeiras semanas para garantir que não haja erros na dosagem de um medicamento crítico.
A calibragem da sua interferência depende exclusivamente de quem está do outro lado da mesa. Isso exige uma observação humana muito crua e uma sensibilidade para entender o contexto de cada um.
Os livros de administração te dão a base teórica, as aulas de gestão te dão os processos, mas a aplicação diária é um exercício de paciência e adaptação constante.
A pressão dos primeiros anos de um negócio faz o recém-formado buscar segurança em respostas prontas. A ansiedade para fazer a clínica dar lucro rápido e pagar os boletos do mês é enorme.
Hoje, a inteligência artificial te entrega um plano de marketing local estruturado ou um protocolo de atendimento ao cliente antes mesmo de você terminar de tomar o seu café. A tentação de simplesmente copiar tudo, colar num documento e mandar a equipe executar é gigante.
Quem lidera negócios com inteligência hoje aprende a ficar confortável no meio da incerteza. Você recebe aquele texto maravilhoso gerado pela máquina e o seu primeiro instinto deve ser questionar o que ficou de fora daquela análise. Você pergunta para si mesmo se aquele modelo de atendimento extremamente formal serve para a cultura da sua cidade, para o perfil dos tutores que frequentam o seu bairro específico.
O seu papel como dono do negócio é duvidar da primeira resposta óbvia e mapear os pontos cegos que um algoritmo treinado com dados globais não tem como prever sobre a rua exata onde a sua clínica está instalada.
O tempo que você ainda tem circulando pelo ambiente acadêmico, resolvendo atritos de grupos de estudo ou liderando projetos em empresas juniores, serve para testar todas essas dinâmicas com um risco praticamente zero.
Quando você estiver com as portas abertas, assinando a carteira de trabalho da sua equipe e pagando impostos altos todo mês, as falhas de leitura humana vão custar bem mais caro no orçamento e na reputação da sua clínica.