Lembro bem de quando o Instagram era um lugar de fotos quadradas, mal iluminadas e com filtros pesados que tentavam dar um ar de “arte” ao que era só um prato de comida ou um pôr do sol.
A gente entrava ali para ver o que os amigos estavam fazendo. Hoje, a sensação é de que entrei num shopping center barulhento onde todo mundo está tentando me vender algo, ou pior, onde um algoritmo decidiu que eu preciso ver vídeos de pessoas que nunca vi na vida fazendo dancinhas ou dando conselhos que eu não pedi.
O problema central, e que muita gente sente mas não sabe dar nome, é a morte do gráfico social. O Instagram parou de se importar com quem você segue.
O foco agora é o tal do “grafo de interesse”, que é uma representação digital que mapeia os interesses, hobbies, preferências e comportamentos de consumo de um indivíduo, conectando pessoas a tópicos, produtos, marcas ou conteúdos específicos.
Se você parou dois segundos a mais em um vídeo de reforma de casa, prepare-se: seu feed vai virar uma maratona do Discovery Home & Health.
Isso quebra a lógica da rede social original. A rede virou uma plataforma de entretenimento, tentando desesperadamente não perder o pescoço para o TikTok.
Isso gera um cansaço mental real. Antes, a gente tinha uma linha de chegada. Você rolava o feed, via as fotos dos amigos do dia e pronto, “você está atualizado”. Agora, o conteúdo é infinito.
O Reels é um buraco negro de tempo. E para quem trabalha com o digital, como eu, a pressão mudou de figura. Não basta mais postar uma foto bonita com uma legenda legal. Se você não fizer um vídeo dinâmico, com cortes rápidos e o áudio do momento, o algoritmo te enterra.
Outro ponto que incomoda é a pasteurização estética. Parece que todo mundo frequenta o mesmo café, usa a mesma paleta de cores e tem os mesmos problemas instagramáveis.
A busca pelo engajamento forçou as pessoas a criarem personagens de si mesmas. O Adam Mosseri (CEO do Instagram), que manda na bagunça, já disse claramente que o Instagram não é mais um app de compartilhamento de fotos. Ele é um app de vídeo.
Essa transição foi agressiva. Muita gente que construiu audiência baseada em fotografia se sentiu traída, e com razão. O alcance orgânico das fotos despencou, e sobrou esse ambiente onde a publicidade está em cada esquina da interface.
É difícil encontrar o botão de postar, mas é facinho achar o botão de comprar ou o de ver vídeos sugeridos. No fim, a gente continua lá por puro hábito ou porque nossos contatos ainda não migraram para outro lugar.
O Instagram hoje é uma ferramenta de consumo, não mais um álbum de memórias compartilhado. Se você quer ser visto, precisa jogar as regras do show business, o que é exaustivo para quem só queria manter contato com o mundo de um jeito simples.