Eu ando observando um movimento curioso nos escritórios ultimamente, algo que a gente sempre soube que existia, mas que agora ganhou nome de batismo e até status de tendência: o tal do coffee badging.
Se você ainda não ouviu o termo, a lógica é simples e, para ser sincero, um pouco cômica. É aquela arte de bater o ponto, aparecer para tomar um café, circular pelo corredor para ser visto e, logo em seguida, evaporar para trabalhar de onde você realmente produz, que geralmente é o sofá da sua casa.
A real é que o coffee badging não nasceu do nada. Ele é um sintoma claro dessa queda de braço entre empresas que exigem o retorno presencial e funcionários que já entenderam que passar duas horas no trânsito para fazer uma reunião no Zoom é o auge do contra-senso.
Quando a gestão foca na presença física em vez de focar no que está sendo entregue, o colaborador responde com o que eu chamo de teatro corporativo. Você entrega a presença que eles pedem, mas só o tempo suficiente para o sistema registrar que você “esteve lá”.
O risco de virar o fantasma do cafezinho
Por mais que pareça uma saída inteligente para manter a liberdade do home office, tem um lado B nessa história que muita gente ignora.
No mundo dos negócios, a percepção muitas vezes atropela a realidade. Se a sua liderança for do tipo tradicional – e se ela está exigindo presencial, é bem provável que seja -, ser visto apenas com uma caneca na mão antes de sumir pode passar uma mensagem de descompromisso.
Eu já vi muita gente talentosa perder espaço em promoções ou projetos estratégicos simplesmente porque não estava “no radar” nos momentos informais de decisão.
O problema não é o trabalho remoto em si, mas essa desconexão entre o que a empresa espera e o que você está disposto a entregar como “presença”. É um jogo perigoso de aparências.
A cultura do crachá contra a cultura do resultado
Se você sente que precisa recorrer ao coffee badging para manter sua sanidade ou produtividade, talvez o buraco seja mais embaixo. Isso diz muito sobre a cultura do lugar onde você está.
Quando a confiança é a base, ninguém precisa ficar monitorando se a sua cadeira está quente. O foco é no prazo, na qualidade e na solução de problemas.
Eu acredito que essa onda é um alerta para os gestores. Se o seu time vai até o escritório só para bater o cartão e sair correndo, o problema não é o funcionário “preguiçoso”, mas sim um ambiente que não oferece um motivo real para as pessoas estarem juntas.
Estar no escritório deveria servir para trocar ideia, criar algo novo ou resolver pepinos que o digital demora a sanar. Se for só para sentar num cubículo e colocar o fone de ouvido, o café de casa sempre vai ter um gosto melhor.
Na minha opinião, a gente está vivendo uma transição mal resolvida. Enquanto as empresas não aprenderem a medir valor de forma moderna, o coffee badging vai continuar sendo a válvula de escape de quem quer trabalhar em paz, mas ainda precisa provar que existe para o RH.
Só vale o cuidado para não virar apenas um vulto no corredor, porque, no longo prazo, quem não é visto com frequencia acaba sendo esquecido na hora que o bicho pega.