A gente escuta o tempo todo que a inteligência artificial vai engolir os empregos. Eu abro o feed e vejo especialistas garantindo que os algoritmos farão o trabalho de grande parte da população em poucos anos.
Quem vive o dia a dia das operações sabe que a dor real do mercado segue por outro caminho. A verdade é que falta gente.
Bati o olho num levantamento recente que escancara um cenário que venho notando nas consultorias e reuniões. Noventa e oito por cento das médias e grandes empresas brasileiras relatam dificuldade constante para encontrar profissionais qualificados em tecnologia.
Quase todas as corporações com faturamento relevante estão com vagas abertas e não conseguem fechar o quadro.
O ponto de atrito nas contratações mudou. Durante muitos anos, dominar uma linguagem de programação ou a arquitetura de um sistema já carimbava o crachá. A régua de exigência subiu bastante desde que as ferramentas automatizaram a parte repetitiva do trabalho.
A barreira do comportamento e a comunicação técnica
Os números da pesquisa mostram uma realidade dura para quem passa anos afiando apenas a capacidade de programar. Trinta e sete por cento dos currículos considerados impecáveis tecnicamente são rejeitados logo nas primeiras entrevistas.
O motivo costuma ser a total ausência de habilidades comportamentais.
O candidato escreve um código excelente. O problema é que ele encontra barreiras para lidar com a equipe, sofre para explicar uma ideia com clareza para líderes de outros departamentos e tem pouca visão sobre o modelo de negócio da empresa onde quer entrar.
O inglês continua sendo um filtro impiedoso. Setenta e oito por cento das organizações simplesmente desclassificam candidatos sem domínio do idioma.
Isso bate de frente com a minha vivência estruturando e observando negócios digitais. Já perdi as contas de quantas vezes vi ideias excelentes patinando por meses na gaveta. O dinheiro estava aprovado, o escopo estava desenhado, a infraestrutura existia. Faltava exatamente alguém que fizesse a ponte entre a tecnologia bruta e o problema real do cliente.
A velocidade das inovações atropelou a capacidade do mercado de formar pessoas que unem técnica e visão prática.
Na pesquisa, eles pontuam que para a inteligência artificial gerar impacto financeiro, as organizações precisam de pessoas que saibam transformar um alto volume de dados em uma decisão de negócio viável.
A máquina compila os números com uma velocidade assustadora. O humano precisa ter o repertório para decidir o próximo passo lógico baseado naquela informação.
Saber utilizar os softwares virou apenas o requisito básico para conseguir uma entrevista. O gargalo corporativo mora na capacidade de traduzir toda essa complexidade em resultados palpáveis para a empresa, e quem desenvolve essa articulação acaba ganhando a liberdade de escolher os próprios prazos e os locais onde prefere trabalhar.