É curioso, e um pouco preocupante, observar como certas tendências chegam ao Brasil com aquele delay clássico. Enquanto lá fora o barco já zarpou e até afundou, por aqui tem gente vendendo ingresso para a festa de inauguração no convés.
Estou falando do “Vibe Coding“.
Se você acompanha o mercado de tecnologia ou o marketing digital, talvez tenha visto esse termo pipocar. A ideia soa sedutora, quase mágica: delegar praticamente 100% da programação para a Inteligência Artificial.
Você pede, a IA faz, você aceita. Sem revisar, sem questionar, apenas seguindo a “vibe” e a velocidade.
Tudo começou com um tweet despretensioso do Andrej Karpathy, ex-Tesla e OpenAI, lá em fevereiro. Ele descreveu uma forma mais solta de codar, deixando a IA assumir o volante. O problema é que o mercado interpretou “forma solta” como “abandono total do critério técnico”.
O resultado disso? Um colapso que já está acontecendo nos grandes centros de tecnologia, mas que no Brasil ainda é vendido como a nova corrida do ouro.
Quando a “vibe” encontra a realidade da segurança
A premissa do Vibe Coding é tentadora para quem tem pressa ou falta de conhecimento: priorizar a entrega rápida em detrimento da qualidade ou do entendimento do que está sendo construído. É o famoso “funciona na minha máquina”, elevado à décima potência.
Só que a fatura chega, e ela costuma ser cara.
O que vimos nos últimos meses foi uma série de desenvolvedores, e aspirantes a desenvolvedores, enfrentando pesadelos de segurança.
Não estamos falando de um botão desalinhado. Estamos falando de chaves de API expostas e bancos de dados inteiros vazados porque a IA gerou um código funcional, mas totalmente inseguro.
Estudos recentes indicam que quase metade, cerca de 45%, do código gerado por assistentes de IA contém algum tipo de vulnerabilidade. É como contratar um estagiário genial que digita na velocidade da luz, mas que deixa a porta dos fundos da empresa destrancada porque não tem noção de modelagem de ameaças.
Confiar cegamente na máquina para estruturar a segurança do seu negócio não é inovação, é negligência.
O perigo do “copia e cola” no marketing brasileiro
Aqui no Brasil, a coisa ganhou uma camada extra de complexidade. O marketing digital, sempre ágil em empacotar promessas, transformou o Vibe Coding na tal “solução milagrosa” para quem quer enriquecer sem esforço.
Os gurus começaram a vender a narrativa de que não é mais preciso estudar lógica, engenharia ou arquitetura de software. Bastaria “copiar e colar” produtos inteiros que fazem sucesso na gringa usando a IA.
Um caso que ilustra bem a fragilidade dessa abordagem foi o hack sofrido pela plataforma de cursos do influenciador Ruyter.
Independente da figura pública, o incidente técnico expôs o que acontece quando se constrói aplicações sem uma base sólida de engenharia de software. Sem validação robusta, sem testes de segurança e sem infraestrutura adequada, o produto é apenas um castelo de cartas esperando o primeiro vento mais forte.
Por que isso não sobrevive no mundo real
No ambiente corporativo sério, ou em qualquer startup que planeje durar mais que seis meses, o Vibe Coding é insustentável.
O código gerado puramente por IA, sem supervisão humana qualificada, tende a ser “sujo”. Ele não segue padrões, é difícil de manter e cria uma imprevisibilidade que nenhum CTO aceita.
Imagine precisar corrigir um bug crítico em um sistema que você não escreveu, não entende e que foi gerado de forma aleatória por um modelo de linguagem. É o caos.
A tendência que está, felizmente, substituindo essa euforia desordenada é o Spec-First Development (Desenvolvimento Primeiro pela Especificação).
Aqui, a ordem natural das coisas é restaurada. Antes de pedir uma linha de código sequer para a IA, você cria a documentação. Você define as regras de negócio, a arquitetura e os requisitos.
A IA entra depois, como uma executora poderosa, e não como a arquiteta do projeto.
A ferramenta não substitui o mestre
O que precisamos entender, de uma vez por todas, é que a Inteligência Artificial é um acelerador incrível. Eu uso, todo mundo usa. Mas ela não é um piloto automático que dispensa o motorista.
O conhecimento técnico, o estudo contínuo e os processos de engenharia – como testes rigorosos e versionamento – continuam sendo a barreira entre um produto profissional e um hobby perigoso.
Se alguém te disser que você pode construir o próximo unicórnio apenas “sentindo a vibe” e colando código sem saber o que ele faz, corra.
A programação assistida por IA veio para ficar, mas a engenharia humana ainda é quem garante que o prédio não vai cair.